quinta-feira, 22 de junho de 2017

Uma coleção de vazios

Eu poderia escrever milhares de linhas sobre todas as minhas teorias pro que aconteceu. Mas não precisamos ir tão longe. Você não me prometeu nada. E talvez o mais duro seja aprender que sorrisos e abraços não são promessas. Eles têm a ver com o presente e não com o futuro. E foi assim, foi o presente que você podia me oferecer.

Enquanto isso, eu erguia meu próprio castelo de areia e esperava você voltar do mar e topar a brincadeira. Mas o tempo, como o mar, tem ritmo próprio e essa dança não é feita de acasos. Foi assim que as ondas destruíram o castelo e as pegadas que deixamos naquela praia.

Também não é sobre querer ficar só. No fundo, a gente sabe que é sobre encontrar alguém que nos faça querer estar junto. O que doeu é não ter sido eu essa pessoa. Mesmo que eu estivesse enxergando todo o tempo que me cabia ali, exatamente ao teu lado.

Não, não precisa me olhar assim de lado, com aquele sorriso exato de mistérios e desejos. Eu sei bem que não existem culpados. Nós somos feitos de metáforas e silêncios. E a vida precisa me lembrar, por vezes, que ela mesma pode transformar tudo em poesia.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Crônica para o fim de agosto

Eu quero te pedir desculpas. Talvez soe um tanto patético por ser tão tarde, mas eu preciso te pedir desculpas. É que subir ouvindo aqueles fogos me calou. Estanquei-me diante da impotência que essa minha falha nos causou. Falha sim, omissões sempre serão falhas também: o bem que deixamos de fazer, o amor que adiamos para expressar.

Caramba, você andando ali do meu lado e o coração doendo cada vez mais. Assumo a culpa agora. Desculpe a minha geração por ter acordado tarde demais. Desculpe também aqueles mais atrasados, que ainda dormem eternamente em berço esplêndido.

Desculpe-me por ter guardado os sonhos em caixas difíceis de organizar. Desculpe-me por ter demorado tanto para ouvir os barulhos na varanda e os doces latidos. Desculpe-me por deixar para depois o começo da terapia, e por protelar a busca por algo que verdadeiramente preenchesse o vazio das noites de terça. Adiar tudo isso me emperrou, você consegue ver? Como amarga enxergar essas pequenezas que poderiam ter despertado mais cedo uma pessoa melhor.

Peço desculpas com vergonha também, entende? A gente cansava de bater no peito, orgulhosos por ser alienados, por odiar política e não se importar. Mas olha, eu quero correr atrás do prejuízo. Será que ainda dá tempo? Para tentar compensar, prometo estar de olhos mais abertos, questionamentos na ponta da língua e com disposição para encarar as lutas. Posso garantir também levar mais a sério o que pode ensinar algo e procurar sempre me informar. Para ajudar um pouco, aprendi novas palavras, como dizia Drummond. Feminismo, empatia, direitos, humanos.

Em tempo, desculpe mesmo a minha geração. No meio da tralha da herança de desigualdades, violência e falta de amor, é possível avistar tesouros. Encontrei mãos que apontaram caminhos e outras que, num gesto simples, apenas se entrelaçaram às minhas. Nunca se engane: unidas elas constroem pontes e desconstroem preconceitos. Elas até tornam algumas palavras mais belas também, Drummond. Gratidão, encontro, irmão.

Eu sei, está dando um medo. Muito mesmo. Mas, desde sempre, você me ensinou a compartilhar. Então, não solta da minha mão.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

No faz de conta


Faz de conta que não se passou uma semana ou alguns anos. Que as batidas da porta não soaram despedida, quando seu olhar me pedia em silêncio para ficar. Faz de conta que agora você é o meu herói, mas que não existem, além de mim, mais noivas pro cowboi. Que podemos voltar à hora do recreio, intervalo para nossa eterna brincadeira de ser dois e falar verdades.

Faz de conta que você já percebeu que eu quero mesmo é falar com você, mesmo sem dizer. Que não existe tempo ou indiferença que valha. Faz de conta que a distância da minha ausência ainda não conseguiu transformar em vazio todos aqueles planos desenhados em muros e estrelas.

Faz de conta que existem dois campeões: o meu time e o seu. Que ainda posso vestir aquela sua camisa, por pura pirraça ou pagamento de alguma aposta tola que nem lembrávamos mais qual seria a prenda.

Faz de conta que a gente agora já não tem medo. O frio e a falta não precisam mais cortar a pele e o coração. Faz de conta que Maria jamais soltou as mãos de João. Não teime em escrever passados ou rimar saudade com maldade. Faz de conta que no nosso era uma vez, a princesa coroada não pulou os muros do seu conto pra viver o mundo. 

Esse texto é um projeto especial do Esquinas com músicas de Chico Buarque e foi inspirado na música "João e Maria". 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Só de coisa boa

Fiz um poema pra você, meu bem. Da prosa, fiz poesia. Do contorno disforme da nossa história, separei meia dúzia de sílabas que, juntas, traduziram a melodia. E ali, eu vivi. Naveguei por entre as intempéries do seu caminho e o desejo de paz que vinha de ti. Não me calei diante da rima mais aguda da saudade. Nem fraquejei com a necessidade de em um só abraço te caber. Sabe a distância? Ela se entrega ante a vontade de te ver ficar e querer.
  
Um pouco mais, fica. Escuta o compasso de um coração que já se entregou e nem mais se justifica. Que já chorou, aceitou e voltou. Agora, ele acrescenta continuações às reticências que inicialmente eram só ponto final, malas prontas e estrada afora.

Viaja depois. Porque se você ficar, ah! Se você ficar, o só lá se parte em dois e o resto é do acaso. Faço um poema pra você, meu bem. Até esqueço-me do seu costumeiro atraso. Aos céus, aos ventos e ao mar, só peço canoa para navegar. E no seu sorriso, encontro morada para ancorar.

Esse texto é um projeto especial do Esquinas com músicas de Saulo Fernandes e foi inspirado na música "Só por ti".

domingo, 30 de junho de 2013

À beira-mar, um táxi pra estação lunar.


Não queria mais brincar. Ser gente grande a fez trocar sonhos, planos e contos de fadas pela rotina dos dias e ônibus cheios e de inspiração, fé e sorrisos vazios. Nem menina, nem mulher. Mas como não são as batidas do coração que coordenam o relógio da vida, em um fim de tarde do mês de maio, ela, talvez sem notar, embarcara para a viagem que tanto sonhou e agora pouco acreditava.

Para quem já havia passeado por estrelas, muito além daquelas que guardava o mar, ter a constelação como paisagem a fez relembrar caminhadas antigas. Ao seu lado, ele, consciente de si e da sua responsabilidade naquele embarque. Compartilharam silêncios. E este, quiçá, seja o sinal de alerta mais evidente. Era preciso apertar os cintos, a viagem estava só começando.

Como destino, o ponto final dos amantes. Na estação lunar, as reticências das histórias que não encontraram seu fim esperavam por desfechos ou continuações. E ali, estavam eles. O nascer de mais um dia anunciava as tantas mil possibilidades que se abrem para aqueles que creem. Para aqueles que voltaram a crer. E, lilás, brilhavam os raios de um sol nascente para aqueles que embarcaram juntos, para a ida e para a volta. 


Esse texto é um projeto especial do Esquinas com músicas de O Grande Encontro e foi inspirado na música "Táxi Lunar".

domingo, 5 de maio de 2013

Perguntas sem respostas


Fico daqui me perguntando se no meio da bagunça de histórias não vividas, tons, dias remexidos e papéis rabiscados, você não estaria me sorrindo de volta. É que em algum lugar de um passado distante, aquele sorriso torto me olha e tudo parece tão bem. Fico me perguntando se você deixou a porta entreaberta porque sabia que teria que voltar pra buscar as roupas penduradas, os guardanapos escritos e a saudade sem saída. Fico daqui me perguntando se não te trancaram na sala outra vez e te fizeram dormir no sofá, por imaginarem que, como de costume, você não voltaria por estar comigo.

Fico me perguntando por quanto tempo esperei que você voltasse em uma quarta-feira de manhã. Ou no pôr-do-sol de uma quinta. Porque era quinta e você sabia que esse era o tipo de coisa que eu jamais esqueceria. Pergunto-me se em algum dia no final do expediente você não seguiu o caminho da minha casa, sem pensar, como se aquela fosse a única rota a ser seguida. Fico daqui me perguntando se seus dedos não tremeram sobre o Enter, certo de mandar algum sinal que me fizesse acreditar que tudo ficaria bem entre nós de novo.

Fico daqui me perguntando se todas as histórias são sempre iguais ou se só eu tenho essa mania boba de carregar interrogações desacompanhadas. Pergunto-me se você ainda tem aquela sua mania boba de não planejar demais e de largar tudo exatamente quando tudo parece tão certo. Fico daqui me perguntando se no meio dessa bagunça toda, a gente ainda consegue se encontrar. Fico daqui. E fico me perguntando se a vida é mesmo isso aí ou se você ainda vai descobrir que ela está aqui.

terça-feira, 5 de março de 2013

Tudo o que não foi dito


Sempre amante das entrelinhas e daquele sorriso de canto de boca que marcara seus mais doces sonhos, ela não desconfiava que crescer também significava não confiar mais nesses tipos de magias. Tantas outras já haviam escorrido pelo ralo da realidade... Não se engane, menina: o peso do silêncio, por muitas vezes, sufoca. Entrelinhas não são mais ingredientes que trazem o sabor de encanto às porções. Quando nos tornamos gente grande, elas se tornam melodias sem letra. E só.

Das linguagens da alma, o que não foi dito talvez seja a mais perigosa. É preciso perspicácia para lidar com ela. É preciso verdade e ela anda tão escassa. Muitas vezes não precisa tê-lo entalado na garganta para se absorver doses do veneno. Pouco a pouco o que não foi dito pode também bater à sua porta e desmanchar suas crenças. Ou pior: pode nunca ser dito.

O problema do não dito é justamente, a vontade de que venha a ser. É tão comum que construamos castelos e até sonhos sobre não ditos. Tudo porque ele parece ser fulgás, passageiro. Parece que o que não foi, será dito em instantes, depois da curva. Depois de se olhar mil vezes para conferir a caixa de entrada. De emails, de mensagens, de amores não vividos.

Não, não precisa pintar a boca, menina. Para ser mulher, são outras os tons que se mostram. Aprenda que o tom do que não foi dito é traiçoeiro muito mais aos olhos e à alma que aos ouvidos. É preciso atenção para não se perder na grande bagunça que é a sua memória.